Roberto Justus e Daniel Vorcaro: documentos revelam uma relação empresarial que atravessou diferentes negócios
Relação entre o empresário e o ex-banqueiro envolve antigos empreendimentos, fundos de investimento e a SteelCorp; mensagens reveladas em 2026 mostram meses de cobranças por um aporte que chegou a ser discutido em R$ 143 milhões
A relação empresarial entre o apresentador e empresário Roberto Justus e Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, ganhou novos contornos após a divulgação, em outubro de 2026, de mensagens trocadas entre os dois.
Os diálogos, extraídos do celular de Vorcaro e divulgados pelo Poder360, mostram que Justus passou meses cobrando a conclusão de um investimento na SteelCorp, empresa da qual é controlador e CEO. Em determinado momento, diante da demora para transformar o investimento em participação societária, Justus chegou a mencionar a possibilidade de pedir recuperação judicial da companhia.
As mensagens, porém, não demonstram, por si só, qualquer participação de Justus em irregularidades atribuídas ao Banco Master. A própria reportagem do Poder360 ressalta que as conversas analisadas não indicam ilegalidade na operação.
A história começa antes da SteelCorp.
Um vínculo que remonta a antigos negócios
Um dos episódios mais antigos que aparece no levantamento é o projeto do Hotel Golden Tulip, em Belo Horizonte, empreendimento ligado a negócios da família Vorcaro.
Reportagens publicadas em 2026 recuperaram documentos e depoimentos relacionados ao empreendimento, originalmente anunciado para funcionar antes da Copa do Mundo de 2014. Material promocional do projeto identificava Roberto Justus como investidor.
O empreendimento, entretanto, não foi concluído conforme o projeto original.
Em 2026, a VEJA publicou reportagem sobre delações de operadores do mercado financeiro que apontaram supostas irregularidades envolvendo recursos de fundos de previdência destinados ao empreendimento. Essas acusações são atribuídas aos delatores e fazem parte de investigações sobre negócios antigos da família Vorcaro.
A participação de Justus no projeto aparece como vínculo empresarial, mas as fontes consultadas não apresentam prova de que ele tenha participado das irregularidades narradas pelos delatores.
A passagem pela Nest
Outro capítulo envolve a Nest Asset, empresa da qual Justus participou em uma fase anterior de sua trajetória empresarial.
Reportagem publicada pelo UOL em janeiro de 2026 relata que Justus esteve envolvido na estruturação da Nest ao lado de outros empresários. Anos depois, uma estrutura relacionada ao grupo, o Nest Eagle, concentrou investimentos de institutos de previdência, incluindo recursos do Rioprevidência.
O ponto importante é fazer uma separação: as fontes consultadas não apresentam evidência pública de que Justus tenha participado das decisões específicas de investimento dos recursos previdenciários posteriormente questionados.
Assim, esse episódio serve para contextualizar a trajetória empresarial, mas não deve ser apresentado como prova de irregularidade envolvendo o empresário.
2023: nasce a SteelCorp
O vínculo mais documentado entre Justus e o universo empresarial de Vorcaro aparece na SteelCorp.
A empresa foi criada em julho de 2023, originalmente com o nome Dry Service Construction, voltada à construção de casas e estruturas modulares em aço.
Em outubro daquele ano, a companhia assinou um bônus de subscrição avaliado em R$ 75 milhões com o SH Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia (SH FIP).
A operação previa participação de até 30% na empresa e tinha como objetivo financiar equipamentos, capital de giro e a construção de uma fábrica própria.
Na época, o fundo era administrado pela Reag. Segundo Roberto Justus relatou posteriormente à Folha, ele não sabia quem era o cotista final do fundo.
2024: o Banco Master aparece na estrutura
Em julho de 2024, documentos societários registraram a mudança do nome da empresa para SteelCorp e reconheceram a integralização dos R$ 75 milhões aportados pelo SH FIP.
Documentos da Junta Comercial também mostram a presença de Roberto Justus e da Potenza Administração e Empreendimentos na estrutura societária.
O ponto que ganhou importância posteriormente foi a identidade do cotista do fundo.
Segundo documentos registrados na CVM e reportagem da Folha, o Banco Master era o cotista único do SH FIP.
A própria base da CVM registra o SH Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia com posição em ações da SteelCorp. Em outubro de 2025, a carteira do fundo registrava 857.143 ações da SteelCorp, avaliadas pelo custo de aquisição em R$ 75 milhões.
Naquele momento, portanto, existia uma ligação econômica entre o Banco Master e a empresa comandada por Justus por meio de uma estrutura de fundo de investimento.
Setembro de 2024: entra em cena Daniel Vorcaro
Ainda em 2024 surgiu uma segunda frente de negociação.
Segundo a Folha, a SteelCorp apresentou ao Cade, em setembro daquele ano, uma operação envolvendo o fundo Dynamic, ligado a Daniel Vorcaro.
Justus posteriormente afirmou que ele próprio procurou Vorcaro porque precisava de capital para expandir a SteelCorp e construir uma nova fábrica.
O empresário disse que acreditava que o Master poderia ser um parceiro para financiar o crescimento da companhia.
A negociação, contudo, não avançou da maneira esperada.
Segundo o relato de Justus à Folha, Vorcaro teria prometido realizar a conversão do investimento em participação societária, mas o processo foi sendo adiado.
É justamente essa negociação que aparece nas mensagens reveladas pelo Poder360.
Dezembro de 2024: começam as cobranças
Em 21 de dezembro de 2024, Justus enviou uma mensagem a Vorcaro reclamando da dificuldade de comunicação e da demora para concluir o investimento.
O empresário afirmou que havia assinado contrato meses antes e que, apesar disso, a operação ainda não estava resolvida.
As mensagens revelam que Justus considerava ter deixado de seguir outras alternativas de financiamento porque confiava no acordo com Vorcaro.
A partir daí, as cobranças se tornaram recorrentes.
2025: pressão aumenta
Em janeiro de 2025, Justus passou a mencionar problemas relacionados ao caixa da empresa e a necessidade de receber os valores combinados.
Em abril, ele voltou a cobrar a regularização da operação e mencionou uma dívida relacionada aos primeiros R$ 80 milhões, que, segundo sua própria mensagem, deveria ser tratada como antecipação e não como dívida convencional.
Durante o primeiro semestre, as conversas continuaram.
Em agosto, Justus voltou a reclamar que a capitalização ainda não havia sido concluída.
As mensagens mostram que a principal preocupação do empresário era transformar os valores aportados em uma participação societária, evitando que a operação permanecesse contabilizada como dívida da SteelCorp.
Setembro de 2025: Justus menciona recuperação judicial
O ponto mais contundente aparece em 1º de setembro de 2025.
Diante da demora na conversão do investimento, Justus afirmou a Vorcaro que, caso a dívida continuasse registrada em seu balanço, poderia ser necessário recorrer à recuperação judicial.
A frase aparece no contexto de uma discussão empresarial sobre o balanço e a sobrevivência financeira da SteelCorp.
Vorcaro respondeu que os aportes combinados haviam sido realizados, mas que existiam entraves técnicos e jurídicos para concluir a conversão.
Três dias depois, os dois passaram a discutir uma possível saída para o investimento.
A proposta de R$ 130 milhões
Em setembro de 2025, Justus apresentou uma proposta para recomprar a participação relacionada ao investimento.
O valor mencionado foi de R$ 130 milhões, com pagamento previsto em até cinco anos e correção pelo IPCA.
Em outra etapa das conversas, Justus mencionou R$ 143 milhões em notas comerciais e propôs uma estrutura na qual esses títulos seriam convertidos em uma participação de 30%, seguida da recompra das cotas.
As mensagens demonstram que os dois discutiram os termos da operação, mas, isoladamente, não comprovam que a recompra tenha sido efetivamente concluída naquele formato.
A situação financeira da SteelCorp
Em 11 de setembro de 2025, Justus voltou a falar sobre a situação da empresa.
Nas mensagens, descreveu dificuldades para honrar compromissos financeiros e conseguir novos financiamentos.
Também afirmou que precisaria fazer novos aportes de capital e que buscava alternativas para manter a empresa funcionando.
Vorcaro, por sua vez, afirmou que havia investido no negócio porque acreditava em Justus e que aceitaria sair da operação sem receber prêmio, desde que o capital investido fosse preservado.
Novembro de 2025: Banco Master é liquidado
Em 18 de novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master.
O episódio alterou completamente o contexto dos negócios ligados a Vorcaro.
Investigações passaram a examinar diferentes operações envolvendo o banco, fundos de investimento e outras empresas relacionadas ao grupo.
É importante destacar, porém, que a relação entre Justus e Vorcaro na SteelCorp começou antes da liquidação e, segundo a versão apresentada posteriormente pela assessoria de Justus, o empresário buscou encerrar o acordo antes da quebra do banco.
Janeiro de 2026: a ligação com o Master vem a público
Em janeiro de 2026, a Folha revelou que o Banco Master era o cotista único do SH FIP, fundo que havia investido R$ 75 milhões na SteelCorp.
Justus afirmou ao jornal que desconhecia a identidade do cotista do fundo durante parte da parceria.
Segundo ele, acreditava que a Reag era a sócia minoritária, quando, juridicamente, a Reag atuava como administradora e gestora do fundo.
A descoberta veio após o avanço da Operação Carbono Oculto e das investigações envolvendo estruturas financeiras relacionadas ao Master e à Reag.
A reportagem também informou que, posteriormente, a participação que estava relacionada ao SH FIP passou para o controle do BRB.
Justus afirmou ter realizado um novo aporte de R$ 300 milhões na SteelCorp e que os passivos que seriam solucionados com recursos de Vorcaro foram tratados nessa nova capitalização.
2026: novas informações aparecem
Ao longo de 2026, investigações sobre o Banco Master trouxeram à tona diversas mensagens e documentos envolvendo Daniel Vorcaro e empresários, políticos e instituições financeiras.
Em outubro, o Poder360 publicou as mensagens específicas entre Justus e Vorcaro sobre a SteelCorp.
A divulgação revelou que a negociação havia sido muito mais prolongada do que se sabia anteriormente e que Justus vinha pressionando o banqueiro durante meses para solucionar a situação.
A assessoria de Roberto Justus afirmou ao Poder360 que o empresário negociou o investimento em 2024 por meio de uma dívida conversível em ações, mas decidiu encerrar o acordo em 2025.
Segundo a assessoria, Daniel Vorcaro não chegou a se tornar sócio da SteelCorp e a menção à recuperação judicial foi uma estratégia utilizada para pressionar pela solução do impasse.
O que os documentos mostram — e o que ainda não mostram
O conjunto de informações disponíveis permite afirmar que existiram relações empresariais documentadas entre Roberto Justus e estruturas ligadas a Daniel Vorcaro.
Na SteelCorp, há pelo menos duas frentes diferentes:
R$ 75 milhões investidos pelo SH FIP, cujo cotista único era o Banco Master;
uma negociação posterior envolvendo o fundo Dynamic, ligado a Daniel Vorcaro;
mensagens que mostram negociações para conversão de valores em participação societária;
uma proposta de recompra de participação por R$ 130 milhões;
referência a R$ 143 milhões em notas comerciais;
e cobranças de Justus relacionadas à situação financeira da SteelCorp.
Ao mesmo tempo, as fontes consultadas não apresentam prova de que Roberto Justus tenha participado das fraudes investigadas no Banco Master.
Também não é possível concluir, apenas a partir das mensagens, que todas as operações discutidas entre Justus e Vorcaro tenham sido concluídas nos termos inicialmente negociados.
A própria reportagem do Poder360 registra que as conversas não indicam ilegalidade na operação e que os documentos disponíveis não são suficientes para afirmar que a recompra tenha sido efetivamente concluída.
Uma relação empresarial que atravessou diferentes momento